Produtor de “So Emotional” conta bastidores das gravações com Christina

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Ao longo dos anos, temos visto muitos músicos que trabalharam com Christina na gravação de seus álbuns rasgar elogios a ela – tanto pelo talento, quanto pela postura ética. Geralmente, esse tipo de coisa aconteceu do Stripped para frente, e agora, bem no dia do aniversário de 17 anos do álbum de estreia da Christina, encontramos essa palestra dada no mês passado por um produtor que teve o privilégio de ser um dos primeiros a trabalhar com ela. Ron Harris se uniu a Christina para gravar duas músicas quando ela tinha apenas 18 anos de idade: “So Emotional”, que na época era cotadíssima para ser o single final do álbum (e acabou substituída pelo lançamento de Lady Marmalade), e “El Beso Del Final”, originalmente escrita em inglês mas que nunca chegou a ser gravada (e posteriormente foi reaproveitada para o álbum em espanhol na versão que conhecemos hoje).

Harris falou e respondeu perguntas da plateia por uma hora sobre suas experiências com artistas, e no processo comentou um pouco daquela Christina Aguilera que ele conheceu há quase duas décadas, ainda tímida, sem nenhum sucesso nas costas e pronta para fazer sua estreia na indústria musical. Confira aqui o vídeo (a partir dos 45 min) e, logo abaixo, a história que ele contou:

Alguns cantores não querem nem ficar no estúdio durante o processo de edição dos vocais. Por que? Eu não entendo, eu gostaria de ficar. Com Christina Aguilera, aconteceu assim: Ron [Fair] me chamou e disse: “Cara, eu tô com uma garota nova e gostaria que você produzisse algo para ela”. Isso foi na época que Britney Spears havia estreado, então tudo o que eu conseguia pensar era: “Que saco, mais Britney Spears? Só pode ser sacanagem”. Christina ainda não tinha lançado nada, então eu não sabia quem era ela. Mas eu cedi. “[Desanimado] Ok, manda ela pra cá então…”.

Eu reservei para ela 3 dias. É assim que geralmente funciona, você calcula tempo para gravar vocais de fundo, vocais principais, e ainda se precisar reparar alguma coisa, tem mais um dia para isso. Essas sessões não duram um dia inteiro, geralmente giram em torno de 6 horas por dia – até porque não dá para forçar muito o vocal sem começar a perder qualidade. Aí ela apareceu, uma garotinha minúscula, magrinha, e eu nunca tinha escutado ela cantar nada antes. Eu começo perguntando, “E aí, aprendeu a música?”, e ela responde [com voz de garotinha]: “Sim, aprendi”.”Então tá, vamos para o estúdio ver o que você tem aí”.

Como produtor, você sempre está gravando. Como engenheiro de estúdio, você sempre está gravando. Você só para quando o cantor para. Nunca, nunca, nunca, nunca pare antes do cantor, porque ele continua fluindo e certas coisas você não consegue reproduzir depois mais. Para começar então eu disse: “Vamos aquecer, canta a música uma vez para mim para eu ver onde estamos”. Nesse e´poca a gente usava um dos primeiros equipamentos digitais lançados. Ela entrou na cabine e eu logo apertei o botão de gravar, dizendo, “Ok, vamos logo começar com isso”, pensando que seria um take perdido só por fazer, tipo: “Mais uma ex-Clube do Mickey que não sabe cantar, onde eu me meti? [risos]”. A música é uma chamada “So Emotional”, que fiz para o “Genie In A Bottle” *que na verdade se chama “Christina Aguilera”, mas ok/mychristina*.  

A música começou, estou esperando e, quando ela começou a cantar… meu queixo literalmente foi ao chão. E ela cantou a música inteira de uma vez! Eu não ia parar de gravar até ela parar de cantar! Ela foi detonando nota por nota, a coisa toda… tipo, botando tudo abaixo. Eu só ficava lá sentado incrédulo, pensando: “Que que está acontecendo?!”. A música acaba, eu vou até a cabine, chuto a porta, olho pra ela sem palavras [gesticulando como quem não sabia o que dizer], ela olha pra mim e pergunta [sem entender nada]: “O que?”.

“Como assim o que?! [risos] Tá me zuando? Eu não tinha ideia de que você cantava assim!”. E ela só responde meio “hihihihi” [risos]. Naquela hora eu pensei: “Agora a coisa vai acontecer!”, coloquei toda minha empolgação de produtor pra fora – e aí vem a melhor parte: eu não precisei fazer nada. Foram tantos anos produzindo cantores, tendo que orientar como fazer, para onde ir, como cantar… e ela tava simplesmente ali, pronta.

Foi incrível. Mas infelizmente não deu para aproveitar tudo. Da música que está no álbum, aquele primeiro verso – o verso inteiro, tudinho – é a primeira vez que ela cantou a música. O segundo verso tava perfeito, mas era meio R&B e a gravadora interveio, dizendo que aquele não era o estilo dela. Achei que eles estavam me zuando, né? Mas precisamos voltar e dar uma polida nele. No total, contando a gravação dos backvocals, gastamos só um dia. A gente acabou ficando com ela por mais dois dias sem ter o que fazer. Demos umas voltas, batemos papo no Wendy’s – ela amava Wendy’s e adorava Sugar Ray, era isso que a gente conversava. Era muito legal. Ela ficou cansada quando fomos gravar a ponte da música, aí para relaxar eu dei um café com creme de amêndoas. Imagina, ela era minúscula, então virou uma metralhadora depois de tomar [risos]. Não parava de falar, disparava o tempo todo. Foi muito legal, a experiência foi muito bacana. Ela inclusive colocou isso nos agradecimentos do álbum, “Ron, obrigada pelo episódio maluco envolvendo aquele café!”. Muito bacana. E uma coisa que eu digo aos cantores: na pausa antes de ela começar a gravar os adlibs, ela ficava ouvindo Mariah Carey e Brandy. Toda vez que eu falava: “me dê um minuto, deixa eu preparar o próximo take”, ela colocava os fones de ouvido e começa a ouvir, emular, estudar. Ela vivia aquilo. Seu foco era todo esse, e isso que fez dela um sucesso”.

8 comentários

  1. Eu queria essa gravação de take só totalmente R&B que a gravadora disse não ser o estilo dela. A RCA não sabia ou ainda não sabe que Christina Aguilera não tem estilo definido, ela tem a voz.

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